Passei a desmaterializar meus sentimentos e; desde então não chorar a cada partida. Não que não me importasse, mas precisava deixar de acreditar nas minhas mentiras. Era(é) minha última chance antes que meu coração se partisse em pedaços novamente, a cola já não me era o suficiente - as rachaduras do passado já abalavam toda a estrutura.
Levantei daquela cama e antes que pudesse desistir, juntei todas as minhas roupas do chão e duas folhas em branco postas em cima do criado mudo e em silêncio cambaleei até a porta (o vinho da noite anterior ainda circulava em minhas veias) saí. Minhas pernas tremiam, mal conseguiam me dar sustento, entrei na primeira padaria, sentei-me, pedi um café e me vi procurando palavras para justificar minha ausência ao dono do sorriso que eu mal conhecia,mas iluminou meu corpo inteiro naquela noite.
De certa maneira - depois de alguns goles de álcool - ele fora extraordinariamente o anjo que eu havia procurado até aquele momento, e nem estou falando de sexo. Estou falando de bondade e carisma, ele me fez perder o juízo, mudou minha direção; e ao som do seu violão ao ‘blues’ compartilhei todas as histórias, todas as verdades que eu não poderia. Quando finalmente a ressaca nos atingiu os olhos ele era só mais um moleque de boné saciando sua carência, seu coração gelado. Mas seu sorriso me bajulava e a cada troca de olhar sua voz parecia penetrar no meu cérebro, não consegui, não consigo - mas tento apagar qualquer lembrança vasta que me apareça repentinamente daquela noite.
Horas rascunhando corações desnudos sobre o papel, nossos nomes repentinamente lado a lado, o queria ali olhando nos meus olhos segurando-me o rosto; uma lágrima ; um sussurro:
Te deixei implorando para você não me deixar te deixar.
Foi o único verso salvo que escrevi naquele momento, em volto de corações mal desenhados. Envolvi o verso na outra folha e enquanto procurava algum adesivo para que pudesse lacrá-lo, percebi que aquilo tudo era loucura. Ele jamais se importaria.
Caminhando em direção a caixa de correio meu corpo se desvirtuou da minha mente, não me lembrava da trajetória até sua casa. Cansada de vagar; sentei em uma escadaria me pus a chorar, amassei o verso e parti.
Continua..
Alcool, blues e moleque de boné.
ResponderExcluircurti a foto!
ResponderExcluirSó falta me dizer que o Blues era regido por Miles Davis. Caso seja, esse menino do boné sabe das coisas.
ResponderExcluirHasta luego señorita